Nos Estados Unidos, um movimento que ganhou força nas redes sociais defende a revogação da 19ª Emenda da Constituição, responsável por garantir o direito das mulheres ao voto em 1920. O lema é direto: “Repeal the 19th” (“Revoguem a 19ª Emenda”).

À primeira vista, pode parecer um debate restrito aos EUA. Mas não é.

No Brasil, também já circulam discursos defendendo que as mulheres não deveriam votar. Ideias semelhantes aparecem em países da Europa e fazem parte de uma onda internacional que questiona direitos conquistados ao longo do último século.

De onde vem esse discurso?

Embora não exista um único grupo por trás desse movimento, alguns elementos aparecem com frequência.

Ultraconservadorismo e machosfera

Parte desses grupos interpreta o avanço dos direitos das mulheres como uma ameaça aos papéis tradicionais de gênero. Na visão deles, mudanças sociais teriam enfraquecido a família, reduzido as taxas de natalidade e alterado o papel masculino na sociedade.

Polarização política e redes sociais

Comunidades ligadas à chamada cultura redpill encontraram nas redes sociais um ambiente propício para ampliar esse discurso. Em muitos casos, frustrações econômicas, sociais e afetivas são direcionadas contra movimentos feministas e contra a ampliação dos direitos das mulheres.

A ideia da “representação familiar”

Alguns defensores vão além e propõem substituir o voto individual pelo chamado “voto da família”. Nesse modelo, apenas o “chefe da casa”, normalmente entendido como o homem, teria direito a votar, representando todos os demais integrantes da família.

Na prática, isso eliminaria a autonomia política de mulheres, jovens e outros membros do núcleo familiar.

Existem argumentos usados para defender essa ideia?

Sim. Os defensores costumam utilizar dados eleitorais reais, mas fazem uma interpretação bastante específica deles.

Pesquisas realizadas no Brasil, nos Estados Unidos e em diversos países europeus mostram que homens e mulheres, em média, apresentam diferenças no comportamento eleitoral.

De forma geral:

  • Mulheres, especialmente as mais jovens e solteiras, tendem a demonstrar maior apoio a candidatos de centro ou centro-esquerda e a pautas relacionadas à saúde, educação, assistência social e direitos civis.
  • Homens, sobretudo jovens e de meia-idade, tendem a apoiar com maior frequência candidatos de direita ou ultraconservadores, priorizando temas como segurança pública, livre mercado e valores tradicionais.

A partir desses dados, alguns influenciadores conservadores passaram a defender que o voto feminino dificultaria vitórias eleitorais permanentes da direita.

Também é comum afirmarem que mulheres votariam movidas por emoção ou por interesses ligados ao assistencialismo, enquanto homens fariam escolhas mais racionais, focadas na economia.

No entanto, essa é uma generalização que não encontra respaldo nas pesquisas científicas sobre comportamento eleitoral. Estudos mostram que o voto é influenciado por uma combinação complexa de fatores como renda, escolaridade, religião, idade, região, experiências pessoais e contexto político e não apenas pelo gênero.

Mais do que uma discussão sobre eleições, esse debate revela uma disputa em torno da própria democracia. O direito ao voto não foi uma concessão espontânea dos Estados: foi resultado de décadas de mobilização e participação política das mulheres em diversos países.

Quando um direito passa a ser tratado como negociável, vale perguntar: qual será o próximo? 

“Nunca se esqueça de que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos nunca devem ser considerados definitivamente adquiridos.” Simone de Beauvoir

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