• 21 de agosto de 2026
  • Gedi Pereira
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Body splashes e hidratantes corporais com fragrâncias de caramelo, pistache, morango, cereja, baunilha e chocolate. Trends batizadas de Strawberry Makeup, Latte Makeup e Glazed Donut. Você já se perguntou por que tantos produtos e tendências de beleza estão recorrendo a nomes, sabores e referências da gastronomia? 

Esse comportamento faz parte de um movimento maior que a indústria vem chamando de “foodification of beauty” ou “beauty gourmand”. A beleza passa a incorporar a linguagem da comida para vender não apenas um produto, mas também uma experiência sensorial e emocional. 

Estamos diante de um fenômeno cultural impulsionado pelas redes sociais, no qual referências a sobremesas e alimentos se tornaram uma espécie de ingrediente secreto para gerar identificação e engajamento. Segundo dados da Spate, as buscas por fragrâncias gourmand “inspiradas em sobremesas” tiveram um crescimento de 182,1%. Já a tendência “strawberry girl makeup” ganhou força após um único tutorial no TikTok alcançar 45,1 milhões de visualizações. 

Mais do que uma simples tendência estética, o crescimento da beleza inspirada em sabores e alimentos reflete uma mudança cultural na maneira como os consumidores se relacionam com indulgência, prazer e identidade. Rotinas cotidianas de beleza passam a ser transformadas em experiências sensoriais e principalmente, em experiências que merecem ser compartilhadas. 

Da beleza à moda 

O beauty gourmand, no entanto, não se limita ao universo dos cosméticos. A moda também vem explorando a gastronomia como fonte de inspiração estética e cultural. 

Vários editoriais de moda usam da gastronomis como fonte de inspiração.  
A Moschino criou um dinner jacket com botões em formato de talheres, bolsas em formato de baguete, clutches inspiradas em alimentos e acessórios que remetem à gastronomia continuam aparecendo nas coleções, misturando luxo, humor e todas essa estética de “Foodfication”. 

A aproximação entre esses universos não acontece por acaso. A comida não é apenas uma fonte de nutrição, mas também de conforto, memória e afeto. Isso ajuda a explicar por que produtos de beleza inspirados em ingredientes comestíveis conseguem estabelecer uma conexão emocional tão forte, especialmente em períodos marcados por incertezas, como a pandemia de COVID19. 

A psicologia mostra que um dos caminhos mais eficientes para criar conexão com os consumidores e chegar ao coração deles e às suas penteadeiras passa pelos cinco sentidos. Incorporar alimentos e bebidas à beleza, portanto, também permite que as marcas se apropriem de tendências que já existem fora do universo dos cosméticos, transformando referências culturais em produtos e narrativas de consumo. 

Um bom exemplo é a Rhode, marca de beleza criada pela influenciadora Hailey Bieber, que ajudou a popularizar o conceito de “strawberry makeup”. A estética, baseada em tons avermelhados e rosados associados ao morango, mostra como uma referência gastronômica pode ultrapassar o universo da alimentação e se transformar em uma linguagem visual capaz de orientar maquiagem, comportamento e consumo. 

Mais do que estética 

Sob uma perspectiva antropológica, a estética comestível revela algo que vai muito além da moda. Ela fala sobre pertencimento, memória, desejo e identidade cultural. Ao mesmo tempo, evidencia um paradoxo cada vez mais presente na cultura de consumo: a relação entre prazer, indulgência, desperdício e ostentação. 

Quando uma fragrância cheira a bolo de baunilha ou um gloss é apresentado como uma sobremesa, não estamos apenas diante de uma escolha olfativa ou estética. Existe uma narrativa sendo construída em torno daquele produto, uma tentativa de transformar o consumo em uma experiência capaz de despertar sensações, memórias e desejos. 

E essa aproximação entre comida e beleza parece estar apenas começando. O futuro do setor aponta para um aumento dessa fusão e que será cada vez mais frequentes, que vão desde lançamentos de edição limitada e colaborações até produtos que incorporam referências gastronômicas de maneira permanente ao DNA das marcas. 

À medida que os consumidores se tornam mais atentos aos ingredientes e cada vez mais influenciados por comunidades e referências culturais, as marcas que conseguirem combinar transparência, contexto cultural e prazer sensorial terão mais chances de permanecer relevantes. 

No fim, talvez a pergunta não seja apenas por que a beleza está parecendo comida, mas por que, em uma cultura cada vez mais visual e compartilhável, comer, vestir, perfumar e se maquiar estão se tornando formas cada vez mais próximas de expressar quem somos. 

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